Rotékh

Manifesto da Vida

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Capítulo 10. Depois do reator: Atlântica e a rede que rasgou sem separar, ca. 1,88–0,48 Ga

Do relaxamento estateriano aos aulacógenos invertidos e aos mares que cobriram as costuras

Modelo de trabalho

A amálgama paleoproterozoica reuniu Amazônia, Oeste Africano e São Francisco-Congo em Atlântica. Seu interior foi reativado por riftes de idades e direções recorrentes. No Toniano, parte da rede chegou a oceano e parte abortou. A convergência brasiliana fechou os oceanos e inverteu os braços do interior; o colapso posterior instalou grábens e mares rasos sobre corredores herdados. Atlântica na classe de área da Laurentia, a equivalência continental das quatro famílias estruturais, o fechamento tardio dos braços por esforço transmitido e Clymene como mar interior são hipóteses deste livro; cada ligação tem grau de confiança próprio.

Atlântica · cráton · código de barras · Columbia · Rodínia · Gondwana · tafrogênese · aulacógeno · hiperextensão · ofiolito · Araguaia · Damara · Brasiliano · colapso · sinéclise · ca. 1,88–0,48 Ga

Resumo

Depois de 1,88 Ga, a história deixa o distrito mineral e acompanha o continente que o continha. Atlântica foi proposta para reunir blocos hoje distribuídos ao redor do Atlântico Sul, amalgamados pelas colisões de ca. 2,2 a 1,9 Ga que o capítulo 8 contou. Amazônia, Oeste Africano e São Francisco-Congo formam seu núcleo mais defensável. São Luís e o embasamento da Flórida ajudam a reconstruir as bordas; a posição do Kaapvaal continua mais incerta.

O capítulo usa dois instrumentos já apresentados. O código de barras, do capítulo 5, compara idades de diques, suítes magmáticas, riftes e deformações entre blocos. A gramática estrutural, do capítulo 8, compara as direções que eventos sucessivos reutilizam. Coincidências de idade só ganham significado paleogeográfico quando convergem com paleomagnetismo, proveniência, continuidade de terrenos e geometria de margens. Direções recorrentes demonstram herança local; sua equivalência entre crátons exige teste.

Atlântica sofreu rifteamento no Estateriano, permaneceu ligada às montagens de Columbia e de Rodínia e começou a rasgar em rede no Toniano. Alguns segmentos alcançaram crosta oceânica; outros ficaram em hiperextensão ou abortaram. A montagem do Gondwana consumiu os domínios oceânicos e transmitiu encurtamento aos braços do interior. Araguaia, Gurupi, Paraguai, Araçuaí e o Damara interno ocupam posições diferentes nesse espectro. Entre ca. 0,54 e 0,48 Ga, o colapso abriu bacias e permitiu que mares rasos cobrissem corredores quentes e subsidentes. Atlântica não sobrevive como placa intacta. Sobrevive como substrato, conjunto de suturas e memória mecânica dentro do Gondwana e, depois, da América do Sul.

1. O encaixe que todo mundo vê

Abra um mapa-múndi e olhe para o Atlântico Sul. A costa do Brasil cabe na costa da África como duas peças de quebra-cabeça, e essa observação, feita por quem quer que tenha olhado um mapa desde o século XVI, foi o primeiro argumento de Alfred Wegener para a deriva dos continentes. O encaixe é real. Há cento e vinte milhões de anos, Brasil e África eram um bloco só, e o oceano que os separa nasceu de um rifte que a gramática do capítulo 8 ajuda a explicar.

Este capítulo trata de um encaixe mais antigo e mais profundo, que não se vê na linha da costa. Quando se apagam os sedimentos jovens e se olha para o embasamento, as faixas de rochas de 2,2 a 1,9 Ga do Brasil continuam na África Ocidental com as mesmas idades, as mesmas rochas e as mesmas direções. O ciclo Transamazônico de um lado é o Birimiano do outro (Ledru et al., 1994). O que o rifte cretáceo separou já era um continente desde o Riaciano, e esse continente é o assunto daqui.

Antes de nomeá-lo, uma palavra que o livro vem usando e que merece definição. Cráton é um pedaço de continente que parou de se deformar há muito tempo, em geral desde o Precambriano, e que atravessa os ciclos seguintes como peça rígida. Tem crosta antiga, raiz de manto frio e espesso, a quilha do capítulo 2, e borda onde as colisões mais jovens batem sem entrar. O Cráton Amazônico, que contém Carajás, é um deles. O Oeste Africano é outro. São Francisco e Congo, hoje separados pelo Atlântico, formam um terceiro. Crátons são as peças; os cinturões de rochas deformadas entre eles são as costuras.

2. As peças de Atlântica

Rogers (1996) chamou de Atlântica o continente formado em torno de 2,0 Ga por terrenos hoje distribuídos ao redor do Atlântico Sul. O nome perdeu espaço para as reconstruções de Columbia, o supercontinente maior em que ele se inseria, mas o objeto geológico permaneceu.

O núcleo tem três peças. O Cráton Amazônico inclui Carajás e as províncias que foram sendo coladas a oeste ao longo do Proterozoico. O Cráton Oeste-Africano prolonga o sistema paleoproterozoico do outro lado do oceano moderno. São Francisco e Congo formaram um bloco coerente até a abertura cretácea do Atlântico. Nas bordas há fragmentos que viajaram. O cráton de São Luís, no Maranhão, tem afinidade oeste-africana e ficou do lado brasileiro quando o Atlântico abriu (Klein e Moura, 2008). O embasamento da Flórida, conhecido como Suwannee, é um pedaço de Gondwana que ficou preso à América do Norte quando o Atlântico Central abriu (Mueller et al., 1994, 2014). O paleomagnetismo recente sustenta proximidade entre as Guianas e a África Ocidental em ca. 2,1 a 2,0 Ga, ainda com liberdade de rotação e de translação (Antonio et al., 2021).

Kaapvaal, o cráton arqueano da África do Sul, ocupa a borda do modelo. Sua inclusão numa Atlântica ampliada depende da natureza e da largura dos domínios do Damara, a faixa de rochas deformadas que corre pela Namíbia entre o Congo e o Kalahari, e de sua posição anterior à montagem do Gondwana. O capítulo mantém essa possibilidade como variante. A reconstrução central funciona sem ela.

A área total de Atlântica pode ter alcançado a ordem de dez milhões de quilômetros quadrados, pouco maior que o Brasil de hoje, dependendo do traçado das margens cobertas e da inclusão de blocos periféricos. Compará-la à Laurentia, o núcleo da América do Norte, comunica classe de grandeza, não medida cartográfica. O argumento importante é térmico e mecânico. Havia interior continental amplo o bastante para conservar estruturas, acumular coberturas, tapar o calor do manto, como o capítulo 3 previu, e responder de modo desigual às perturbações do manto e das margens.

3. Como ler o código de barras

O capítulo 5 apresentou o código de barras como a certidão de um bloco. Bleeker (2003) deu ao método sua forma mais poderosa ao propor que os enxames de diques e os grandes eventos magmáticos funcionem como linhas datadas nos fragmentos cratônicos. Um enxame de diques é uma família de centenas de fraturas paralelas preenchidas por basalto, injetadas em poucos milhões de anos quando um continente começa a rasgar. Se dois crátons hoje distantes têm enxames da mesma idade, com a mesma química e a mesma orientação depois de desfeitas as rotações, eles provavelmente eram vizinhos quando o enxame se formou (Ernst e Bleeker, 2010). O método ganhou resolução com a datação de badeleíta, um óxido de zircônio que cristaliza em basaltos e carrega o relógio urânio-chumbo.

Atlântica oferece linhas robustas e linhas sugestivas. A amálgama de 2,2 a 2,0 Ga é o traço mais forte porque combina idade, sistema orogênico, proveniência e paleomagnetismo. Os pulsos estaterianos entre ca. 1,88 e 1,70 Ga aparecem na Amazônia e no São Francisco-Congo, mas são de idades diferentes e podem registrar motores distintos (Teixeira et al., 2019; Cederberg et al., 2016; Caxito et al., 2020). Magmatismo e riftes tonianos entre ca. 1,05 e 0,90 Ga, seguidos por hiperextensão entre ca. 0,77 e 0,73 Ga, desenham outra família ampla. O colapso cambriano entre ca. 0,54 e 0,48 Ga fecha a sequência.

Pareamentos mais finos exigem cautela. Lavras I, no São Francisco, e Buritirama, em Carajás, ambos perto de 2,55 Ga, formam hipótese de vizinhança, ainda sem geometria compartilhada demonstrada. Sereno, Gurupi, Amapá e Minas têm idades próximas de 2,0 Ga, mas a equivalência entre seus campos de esforço permanece aberta. Uma idade comum pode nascer de um evento continental, de respostas independentes ao mesmo ciclo ou de coincidência.

A segunda camada é a gramática do capítulo 8. As quatro famílias de direções reaparecem em Carajás e em outros segmentos da plataforma, e as relações de corte mostram que são reutilizadas por eventos de idades diferentes. Isso prova memória em cada domínio. Transformá-las numa língua aprendida durante uma única colisão, falada por todos os blocos, exigiria demonstrar idade de criação, cinemática original e continuidade entre crátons. O livro usa a expressão gramática para a rede herdada e reeditada, sem fixar todas as letras no Riaciano.

4. O que um rifte pode virar

Este capítulo acompanha riftes que tiveram destinos diferentes, e vale apresentar a escada antes de subi-la. Um rifte continental começa quando a litosfera se estica e se parte, como no capítulo 3, e o Rift da África Oriental de hoje é o degrau de entrada, com seus vales, lagos e vulcões. Riftes costumam nascer em três braços a partir de um ponto, como as rachaduras de um para-brisa atingido por uma pedra. Em geral dois braços prosperam e o terceiro morre, e o braço morto recebe o nome de aulacógeno. O exemplo clássico é a fossa do Benue, na Nigéria, o braço que apontava para dentro da África quando o Atlântico Sul abriu, ficou para trás e se encheu de sedimento. Um aulacógeno é um rifte que não deu em oceano.

Se o estiramento continua, a crosta afina até quase desaparecer e o manto sobe até o fundo do mar sem que uma dorsal se instale. É a hiperextensão, e a margem entre a Península Ibérica e a Terra Nova, no Atlântico Norte, mostra o estado ao vivo, com manto serpentinizado exposto no assoalho a centenas de quilômetros da costa. Se o estiramento continua ainda mais, nasce uma dorsal e se fabrica crosta oceânica. Quando esse oceano fecha, uma lasca da crosta e do manto oceânicos pode ficar presa no continente. É o ofiolito, a prova de que houve oceano, e o de Omã, na Arábia, é o mais completo do mundo. Rifte, aulacógeno, hiperextensão, oceano. Os quatro degraus deixam rochas diferentes, e é por elas que se decide a que altura cada braço de Atlântica chegou.

Há ainda um destino de volta. Um rifte, abortado ou não, pode ser apertado depois por uma colisão vizinha. Suas falhas normais voltam a se mover ao contrário, suas bacias são levantadas e dobradas. Chama-se inversão, e é o processo que dá a este capítulo sua segunda metade.

5. O rasgo estateriano

O pulso de ca. 1,88 Ga produziu a província Uatumã e os granitos tipo A que reativaram Carajás no capítulo 9. Mais ao norte, as soleiras de Avanavero, de ca. 1,79 Ga, registram uma grande província máfica (Bispo-Santos et al., 2014). No São Francisco, os enxames de diques de Pará de Minas, os granitos São Timóteo e Borrachudos e as fases iniciais do rifte do Espinhaço concentram-se entre ca. 1,80 e 1,70 Ga (Danderfer et al., 2009; Cederberg et al., 2016). O Granito Uaiãpi registra ca. 1,75 Ga no Amapá (Vasquez e Lafon, 2001). Chama-se tafrogênese a esse rifteamento generalizado de um continente que não chega a separá-lo, e o Estateriano foi, em Atlântica, uma época de tafrogênese.

A diferença de idades impede tratar tudo como descarga instantânea de um único motor. O padrão pode reunir queda de raiz depois das colisões, plumas, magma na base da crosta e extensão dentro da placa modulada pela espessura da litosfera. Continentes grandes isolam o manto e favorecem instabilidade, como o cobertor do capítulo 3; ainda assim, cada província precisa de sua petrologia e de sua geometria. O tamponamento térmico é contexto, não datação de causa.

A ausência de magmatismo conhecido em São Luís-Gurupi durante algumas dessas janelas pode refletir distância do motor, erosão, cobertura ou amostragem (Klein et al., 2005). Não constitui, sozinha, o terceiro ponto de um gradiente. A previsão útil é procurar mudança sistemática de volume, composição e idade entre o eixo Uatumã, as bordas amazônicas e o São Francisco-Congo.

O Mesoproterozoico, de 1,6 a 1,0 Ga, também separa margem e interior. A borda ocidental amazônica cresceu nas províncias Rio Negro-Juruena, Rondoniano-San Ignacio e Sunsás, arcos e colisões sucessivos que foram colando terreno novo a oeste de Carajás (Cordani et al., 2010). A colisão Sunsás-Llano ligou a Amazônia à Laurentia na montagem de Rodínia, o supercontinente de 1,0 Ga (Tohver et al., 2002). No interior, Espinhaço e Paramirim acumularam coberturas e reativações (Cruz e Alkmim, 2017); K’Mudku transmitiu deformação para as Guianas. A conexão SAMBA, uma reconstrução que aproxima o norte da Amazônia e a Báltica, hoje a Escandinávia e a Rússia europeia, em partes desse intervalo, foi proposta com apoio paleomagnético e ainda tem ajustes em debate (Johansson, 2009; Bispo-Santos et al., 2014).

6. A rede toniana

Entre ca. 1,05 e 0,90 Ga, no Toniano, magmatismo e subsidência aparecem em vários corredores de Atlântica ao mesmo tempo. Monte Santo e Serra da Estrela marcam a borda oriental amazônica, perto de Carajás; Lagoa Real, Pedro Lessa e Formiga atravessam o São Francisco; Noqui e os grupos Zadiniano e Mayumbiano registram extensão no Congo (Tack et al., 2001); Capelinha ancora a margem do futuro Araçuaí (Pedrosa-Soares et al., 2001). Os eventos não precisam pertencer a uma única junção de três braços. Juntos, revelam uma litosfera submetida a extensão distribuída, rachando em rede.

A estrutura prévia orientou os segmentos da rede. Riftes aproveitam zonas de fraqueza, contatos de blocos e anisotropias da crosta, a gramática em ação. Falhas de transferência conectam braços de direções diferentes e recortam promontórios e reentrâncias, e a analogia com margens rifteadas modernas ajuda a prever cantos conjugados (Thomas, 2006). Cada pareamento, porém, precisa de pontos de amarração independentes.

O destino variou, e a escada da seção 4 ajuda a ler. Monte Orebe, em ca. 820 Ma, preserva material oceânico no Riacho do Pontal. Quatipuru, no Araguaia, reúne harzburgito serpentinizado e cromitito em ca. 757 Ma, porém carece de uma sequência ofiolítica completa, e pode registrar manto subcontinental exumado durante hiperextensão, o degrau da Ibéria, não o de Omã (Paixão et al., 2008). Boca Nova e diques de ca. 0,77 a 0,73 Ga marcam a continuação do esforço. Hiperextensão, crosta oceânica restrita e oceano maduro são estados de um contínuo, não rótulos intercambiáveis.

A frase rasgou sem separar descreve o resultado em partes do continente. São Francisco e Congo permaneceram unidos, com o braço de Araçuaí entre eles rasgando fundo sem romper (Alkmim et al., 2006). Vários braços do interior abortaram; outros segmentos abriram domínios oceânicos depois consumidos. Atlântica deixou de ser uma placa única, mas muitos de seus blocos conservaram vizinhanças e foram novamente reunidos no Gondwana. Um vidro trincado que ninguém puxou.

7. Araguaia e Damara, comparação e não identidade

O Araguaia, a faixa que corre de norte a sul pela borda leste de Carajás, e o Damara interno, na Namíbia, ocupam corredores intracontinentais longos e registram extensão seguida de inversão. O Araguaia tem sucessão de sedimentos metamorfizados, lascas de rocha ultramáfica, vergência sobre o cráton e metamorfismo que cresce para o interior da faixa (Tavares et al., 2017). Faltam, até agora, um arco magmático neoproterozoico bem definido, uma sequência ofiolítica completa e metamorfismo de alta pressão regional, as três provas de um oceano largo. Esses elementos favorecem hiperextensão e inversão, mas a preservação incompleta impede transformar ausência em prova absoluta.

O Damara interno tem história mais controversa. A interpretação como aulacógeno é antiga (Martin e Porada, 1977); o Khomas foi também descrito como prisma de acresção, o que exigiria subducção (Kukla e Stanistreet, 1991), e o Matchless registra magmatismo oceânico ou de bacia marginal. A largura do domínio oceânico entre Congo e Kalahari permanece discutida (Gray et al., 2008). O braço pode ter evoluído de rifte continental a oceano restrito antes do fechamento. Essa possibilidade é compatível com uma rede heterogênea.

A comparação funciona pela arquitetura. Reentrâncias continentais, plataformas nas bordas, extensão profunda e inversão tardia. Ela não demonstra que Araguaia e Damara eram braços conjugados de um mesmo rifte. A conexão por meio dos Rokelides e de São Luís-Guiné merece teste por proveniência, paleocorrentes, idades máximas de deposição e assinaturas do manto (Villeneuve, 2008; Villeneuve e Rossignol, 2024). O capítulo a apresenta como programa de reconstrução.

8. O fechamento brasiliano

O Brasiliano é o ciclo de colisões do fim do Neoproterozoico, entre ca. 0,65 e 0,50 Ga, que montou o Gondwana Ocidental; na África se chama Pan-Africano. A montagem envolveu arcos, oceanos e colisões reais. Goiás, partes da Borborema, Ribeira, Dom Feliciano e segmentos africanos registram acresção e subducção (Cordani et al., 2013; Konopásek et al., 2020). A polaridade varia no espaço e no tempo; reduzi-la a uma única margem ativa amazônica apagaria mudanças de placa e microcontinentes. O fechamento foi diácrono e segmentado.

Ao mesmo tempo, faixas do interior podem resultar de inversão. O critério precisa reunir conteúdo da bacia, magmatismo, metamorfismo, estrutura profunda e cronologia. A ausência de arco ganha força quando acompanhada por embasamento contínuo sob a faixa, proveniência dos dois lados, afinamento prévio e metamorfismo incompatível com subducção profunda. Araguaia e Gurupi são candidatos fortes dentro do modelo deste livro. Paraguai e Araçuaí têm geometrias confinadas, mas continuam cercados por debates próprios (Alkmim et al., 2006; Cerri et al., 2022). O Damara interno admite crosta oceânica restrita.

Abra uma caixa de papelão pelas emendas e depois tente comprimi-la. Ela não amassa ao acaso. As dobras e os cortes antigos voltam a concentrar a deformação. Um rifte invertido guarda essa biografia dupla. Primeiro foi corredor de extensão; depois recebeu o encurtamento.

A convergência transmitida depois da colisão oferece um mecanismo para inverter aulacógenos, e o Sereno do capítulo 8 já mostrou o princípio. Enquanto uma zona de subducção absorve movimento, o interior pode permanecer pouco deformado. O travamento da margem transfere esforço para dentro e reativa os braços antigos. O modelo prevê inversão posterior ao clímax da colisão adjacente e, em alguns casos, rejuvenescimento em direção ao interior.

A diferença de idades no sistema Damara, com Kaoko, Gariep e o braço interno alcançando picos em janelas diferentes, é compatível com propagação (Gray et al., 2008). Gurupi-Araguaia e Paraguai oferecem os testes sul-americanos. A ordem ainda precisa ser comparada com o erro das idades, a duração de cada evento e possíveis sobreposições térmicas. Fechamento por transmissão é hipótese mecânica falsificável, não lei estabelecida.

9. Colapso e mares rasos

Entre o Ediacarano terminal e o Cambriano, o relaxamento das cordilheiras recém-formadas abriu grábens, vales limitados por falhas, sobre zonas quentes, espessadas ou previamente fraturadas, como o capítulo 8 descreveu para o colapso riaciano. Jaibaras acompanha o lineamento Transbrasiliano (Oliveira e Mohriak, 2003); Piriá sela parte da deformação do Gurupi; Camaquã e Castro registram bacias de transição no sul (Almeida et al., 2012; Paim et al., 2014); diques e granitos entre ca. 0,54 e 0,48 Ga marcam o magmatismo tardio, e os diques de 535 Ma de Carajás pertencem a esse grupo. As idades variam e algumas bacias começaram antes do colapso geral, de modo que o antigo estágio de transição reúne histórias regionais, não um único instante.

Transgressões rasas ocuparam corredores subsidentes e conectaram bacias. Essa geometria oferece uma alternativa a um oceano Clymene contínuo, um oceano hipotético que separaria a Amazônia dos demais blocos até o Cambriano. Parte do registro pode pertencer a um mar interior raso, instalado sobre crosta continental afinada e faixas recém-colapsadas, como os mares que hoje cobrem partes da Europa e da Indonésia (Cordani et al., 2013). A hipótese precisa respeitar onde existem rochas oceânicas e onde os dados de proveniência exigem separação maior.

Com o resfriamento, a subsidência se alargou, e aqui entra a última palavra do vocabulário do capítulo. Sinéclise é uma bacia enorme e rasa, de interior de continente, que afunda devagar durante centenas de milhões de anos sem que nenhuma falha grande a limite, como um prato que vai cedendo. O Parnaíba aproveitou o corredor do Transbrasiliano e o sistema Jaibaras; o Paraná recobriu uma colagem de terrenos em torno do Paranapanema do capítulo 8 (Milani e Ramos, 1998). As sinéclises não são simples moldes das suturas, mas a heterogeneidade do embasamento condicionou seus depocentros, suas falhas e sua história térmica (Almeida, 1969). A plataforma fanerozoica nivelou por cima um mosaico ainda ativo por baixo.

10. Níveis de confiança

Pertencem ao terreno firme as idades dos principais pulsos; a correlação entre o Birimiano e o Transamazônico; a afinidade oeste-africana de São Luís; a origem gondwânica de Suwannee; a união entre São Francisco e Congo; as grandes linhas paleomagnéticas disponíveis; a existência de extensão toniana, materiais oceânicos em alguns corredores e hiperextensão em outros; e as idades gerais da montagem e do colapso gondwânicos.

São modelos publicados Atlântica, o código de barras magmático, a conexão SAMBA, a conexão Sunsás-Llano, o orógeno confinado de Araçuaí-Congo Ocidental, a interpretação intracontinental do Araguaia, a herança tectônica de promontórios e reentrâncias e o papel de riftes abortados na montagem continental. Cada modelo tem variantes incompatíveis entre si; o capítulo usa sua interseção.

São hipóteses deste livro o pareamento Lavras I-Buritirama; a equivalência continental das quatro famílias estruturais; a quina amazônica sob o Parnaíba; Atlântica na classe de área da Laurentia; Kaapvaal ligado por um Damara predominantemente intracontinental; Araguaia e Damara como partes da mesma rede; o fechamento tardio de aulacógenos por transmissão; e Clymene como mar interior de colapso. Algumas podem sobreviver sem as outras. Os testes são concretos. Zircões e isótopos do embasamento perfurado sob o Parnaíba; paleomagnetismo de alta qualidade nas linhas de 2,55, 1,88 a 1,70 e 1,0 a 0,75 Ga; estatística de lineamentos acompanhada de cinemática e idade; sísmica profunda sob Araguaia, Paraguai e Damara; proveniência pareada nas margens propostas; e comparação da idade das colisões externas com a inversão dos braços internos.

Conclusão

Atlântica devolve unidade a uma história fragmentada por oceanos modernos e vocabulários nacionais. O continente nasceu das colisões paleoproterozoicas, acumulou calor e coberturas, cresceu pela margem amazônica e entrou nas montagens de Columbia e de Rodínia. No Toniano, sua litosfera abriu em rede. Alguns braços fizeram oceano; outros expuseram manto ou morreram como riftes. O Brasiliano consumiu os domínios oceânicos e apertou os corredores do interior. O colapso cobriu parte das cicatrizes com grábens, mares e, depois, sinéclises.

O código de barras torna essa biografia testável, desde que cada linha carregue mais que uma idade. Geoquímica, polaridade, paleomagnetismo, proveniência e estrutura precisam concordar. A memória mecânica também deixa previsões. Direções devem ter relações de corte coerentes; aulacógenos invertidos devem conservar embasamento e afinamento sob a deformação; a transmissão de esforço deve aparecer na ordem dos relógios.

A melhor versão da tese admite um continente parcialmente desfeito, uma rede desigual e um fechamento segmentado. Ela perde a elegância de um único zíper e ganha a geologia real das placas. Atlântica continua sob a plataforma sul-americana como mosaico soldado, rasgado, invertido e afogado. Carajás ocupa seu interior antigo. A margem ocidental permanece móvel e cresce nos Andes; o interior conserva as cicatrizes sob as bacias. A plataforma é memória. A margem, apetite. O capítulo seguinte desce de novo a Carajás para procurar, sob essa plataforma, o que sobrou da quilha, e o que ela guardou.

Referências

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